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“Sim, é verdade que os gatos são muito asseados… mas agora o meu insiste em não usar a liteira!”

Voltamos com vontade de partilhar consigo mais informações sobre o Maravilhoso Mundo Felino. Já ouviu falar de eliminação inadequada felina?Sabe que características deve ter em conta na hora de escolher a caixa de areia do seu gato? Sei que provavelmente respondeu que sim (é verdade, os tutores gateiros são muito informados pois partilham a mesma curiosidade que os gatos!), mas desconfio que no final deste artigo irá perceber um pouco melhor estes incríveis seres de quatro patas.

Os gatos são animais extremamente asseados (sabia que passam cerca de duas horas por dia a lavar-se?!) e usam, quase que instintivamente e desde tenra idade, a caixa de areia para eliminar diariamente as fezes e a urina. Desta forma, sempre que um gato urine ou defeque fora da liteira – eliminação inadequada (não confundir com marcação territorial) – é motivo para que o tutor detetive se ponha em ação! Algo se passa para que o gato comece a urinar em cima da cama, a eliminar fezes ao lado da liteira ou até mesmo atrás de um sofá. Não, o gato não está a fazê-lo por vingança ou porque é “um porquinho”! Atrevo-me mesmo a dizer que quando um gato começa com um problema de eliminação inadequada já está em modo de “último recurso”. Não se esqueça que os gatos são muito tolerantes e exímios a camuflar a doença. Seja qual for o motivo deste comportamento, a punição ou o uso de dissuasores (ex. pimenta, cascas de citrinos, etc.) nunca são a solução e só vão provocar mais ansiedade ao gato e piorar a situação.

A caixa de areia ideal
É essencial que todos os gatos, mesmo os que têm acesso livre ao exterior, tenham à sua disposição caixas de areia para poderem fazer a eliminação diária  de fezes e urina. “Caixas de areia”? Sim, não me enganei. Para ser mais precisa o número de caixas de areia recomendado a ter em casa é igual ao número de gatos existentes e mais uma adicional (ex.: se tem um gato deverá ter duas liteiras; se tiver três gatos deverá ter quatro liteiras; etc.). Mas atenção, é importante que as caixas de areia estejam distribuídas em divisões distintas da casa (ex. duas liteiras lado a lado numa marquise não é o mesmo que ter uma na marquise e outra no quarto de banho da casa).

Existem vários tipos de liteiras: as “abertas” (constituídas por um tabuleiro simples) e as “fechadas” (tabuleiro tapado em forma de iglo com porta amovível). Quanto a esta característica as mais comummente escolhidas pelos tutores de gatos são as liteiras “fechadas” com o intuito de oferecer alguma privacidade ao gato e de diminuir a dissipação da sujidade (areia e odor). No entanto, o gato tem tendência a preferir as liteiras “abertas” por não se sentir tão vulnerável como acontece num espaço confinado e com apenas uma porta para entrar e sair. Esta preferência dos gatos em fazerem a eliminação de fezes e urina em espaços amplos, que permitam a visualização do entorno e a fuga em caso de necessidade, é facilmente visível quando os gatos têm acesso ao exterior ou mesmo nos gatos selvagens. A característica da liteira ser aberta tem particular importância em casas com vários gatos pois a saída da caixa de areia pode ser um ponto de conflito e de intimidação entre gatos. Não se esqueça que o gato é o verdadeiro mestre do disfarce e por isso pode usar uma liteira durante anos a fio, mesmo não gostando particularmente dela.

Quer uma Dica Alma Felina? Como é aconselhável ter uma liteira por gato e mais um adicional, coloque à disposição os dois tipos de liteiras: aberta e fechada. Assim conseguiremos suprir todas as preferências felinas!




Uma caixa de areia deve ter o tamanho de pelo menos uma vez e meia o comprimento do gato (desde o nariz até à ponta da cauda) e deve ser ampla o suficiente para que ele consiga virar-se e sentar-se comodamente. No caso dos gatos bebés é importante também ter em conta que as caixas de areia devem serem baixas e com uma rampa antiderrapante para facilitar o acesso ao seu interior. Esta característica também deve ser tida em conta em todos os gatos séniores, em gatos com problemas osteoarticulares ou com qualquer tipo de dificuldade de locomoção.

A localização das liteiras também é de extrema importância para o gato. Deverá escolher locais calmos (ex. evitar colocar perto da máquina de lavar), com pouco movimento de pessoas, ser de fácil acesso e longe das zonas de alimentação e de descanso do gato. Em casas com cães é importante que as caixas de areia estejam em zonas que estes não consigam interferir. Também não se esqueça que é importante distribuir as liteiras por divisões distintas da casa.

Apesar da grande variedade de areias de gato disponíveis no mercado (ex. aglomerantes, sílica, madeira, papel, milho, etc.), os gatos preferem aquelas que mais se assemelhem à areia do deserto (local de origem dos seus ancestrais selvagens). Deste modo a areia a utilizar deve ser de textura fina, leve, sem cheiros e que permita uma limpeza diária de fezes e de urina (de um modo geral as areias aglomerantes são uma boa opção). Não use desodorizantes nem sacos de plástico a cobrir as bases dos tabuleiros das caixas de areia. Mantenha pelo menos 3 cm de altura de areão e limpe-o diariamente de modo a manter as caixas de areia sempre limpas.

Nos últimos tempos têm sido cada vez mais divulgadas as liteiras com limpeza automática mas o seu movimento e ruído podem assustar e dissuadir o gato a usá-las.

Os adaptadores de sanita em forma de disco, com o intuito de treinar os gatos a defecar e a urinar na sanita em vez das caixas de areia são desaconselhados.

Desafio Felino: Agora que já está munido de toda a informação necessária na hora de escolher uma liteira de gato, pense nas que habitualmente vê disponíveis no mercado. A maioria não cumpre estes requisitos, verdade? Infelizmente o mercado tem tendência a ajustar-se mais às preferências e necessidades do tutor em detrimento das do gato. Mas há solução… faça você mesmo as caixas de areia do seu gato. A sério? Sim, é muito simples e económico. Compre caixas de arrumação com dimensões generosas e dê largas à sua imaginação!

Partilho com vocês a história do Phill, um gato que começou a fazer fezes pela casa (principalmente no sofá e no chão). Os tutores aceitaram o desafio de fazer a “casa de banho” ideal para o Phill e como podem ver ele adorou (e o irmão Joey também!!). Desde então que nunca mais fez fezes fora da liteira. Fantástico, não acham?!


 

Quais os motivos para o meu gato ter eliminação inadequada?
A grande maioria dos casos de eliminação inadequada é devida a problemas com a caixa de areia (número inadequado, localização errada, falta de limpeza, dimensões reduzidas, etc.). Então temos boas notícias!! Se seguirmos as dicas acima mencionadas para uma caixa de areia ideal, vamos prevenir muitos dos casos de urina e fezes fora da liteira.

Mas atenção!! Nem todos os casos são por estes motivos e a eliminação inadequada pode ser a primeira “pista” (e em alguns casos até mesmo a única pista) de que algo não está bem com a saúde do seu gato. Como excelente tutor detective que sei que se está a tornar, deverá estar atento a estes sinais e levá-lo de imediato ao Médico Veterinário.

Agora vou falar-lhe dos principais motivos de eliminação inadequada em cada etapa de vida do gato: júnior, adulto e sénior.

Gato Júnior
É habitual que um gatinho recém chegado a casa com acesso imediato a grandes áreas desconhecidas faça urina e fezes fora da caixa de areia. Além de se puder sentir desorientado no novo espaço, a sua capacidade de controlo de fezes e de urina é menor do que em adulto. Para evitar que isto aconteça é importante restringir o espaço nos primeiros dias e permitir um acesso fácil e permanente a uma caixa de areia adequada para gatinhos (baixa e com rampa de acesso ao seu interior). Com o passar dos dias pode deixá-lo explorar, pouco a pouco, as restantes divisões da casa. As experiências negativas associadas ao uso da caixa de areia (ex. assustar-se com a máquina de lavar no momento em que está na liteira, tocar no gato enquanto ele urina/defeca) também podem potenciar a eliminação inadequada.

Gato Adulto
A doença do trato urinário inferior (ex. cristais na urina, cistite idiopática felina, litíase) é um dos principais motivos de eliminação inadequada nesta idade. Qualquer gato que comece a urinar fora da liteira deve ser levado de imediato ao Médico Veterinário, principalmente se estiver a eliminar pequenas quantidades de urina ou a demorar muito tempo a urinar. Estas situações clínicas podem colocar a vida do gato em risco, sendo uma urgência médica.

Os gatos mais vulneráveis à ansiedade e ao stress também podem começar a urinar ou a defecar fora da liteira sempre que se sentirem ameaçados (ex. presença de outros gatos/cães em casa, férias dos tutores, mudança de casa, chegada de um bebé, etc.). Informe-se com o seu Médico Veterinário assistente antes de qualquer alteração na rotina do seu gato.

Gato Sénior
A dor articular é um dos motivos que pode levar um gato idoso a urinar ou a defecar fora da liteira. A dificuldade na locomoção, a entrada na própria caixa ou até mesmo o posicionamento necessário para fazer as necessidades pode ser extremamente doloroso para um gato com dor articular não diagnosticada e não controlada. É importante ter várias caixas de areia distribuídas pela casa e, em casas com vários andares, nos vários pisos. A necessidade de subir/descer as escadas para chegar à caixa de areia pode fazer com que o gato espere “até à última” para ir à liteira ou que acabe mesmo por não a usar. Este “esperar até à ultima” pode ainda potenciar obstipação crónica e aumentar a incidência de infecções urinárias.

A disfunção cognitiva, semelhante à demência mental em humanos, também é cada vez mais frequente devido ao aumento da esperança média de vida dos nossos amigos felinos. Com a perda de neurónios os gatos podem “esquecer-se” da localização da caixa de areia. Nesta etapa da vida do gato muitas outras doenças podem manifestar-se e a única “pista” ser a presença de fezes/urina fora da liteira. São exemplos o hipertiroidismo, a insuficiência renal crónica, a infecção urinária, entre muitas outras.




Por esta razão e, tal como já falado anteriormente no post do mês de Dezembro “Detective: substantivo masculino; pessoa que partilha a vida com gatos e cuja função é investigar e obter informações difíceis de encontrar!”, todos os gatos devem realizar pelo menos uma consulta anual de rotina que inclua, além do exame clínico minucioso, a realização de análises ao sangue e à urina, mesmo que aparentemente esteja tudo normal. Com o avançar da idade vai ser importante avaliar a função da tiroide, medir a pressão arterial, fazer uma avaliação ecográfica e ortopédica com regularidade. Recorde-se que a base da Medicina Felina é a prevenção.

No próximo mês voltaremos com um tema que acho muito aliciante: a interação social dos gatos com os humanos. Sabe como brincar com o seu gato? Os gatos séniores também brincam? Quer saber interpretar o que o seu gato lhe está a dizer? Então regresse connosco… até breve!

Joana Valente
Médica Veterinaria